O que diz o “relatório de IA do fim do mundo” que fez Wall Street afundar de novo

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Relatório viral cria cenário hipotético com IA acabando com empregos nos EUA e destruindo economia - mas ele deve ser levado tão a sério?

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Paulo Barros

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Camille Bocanegra

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24/02/2026 12h20 •

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Atualizado 37 minutos atrás

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Termo "inteligência artificial" e mão de robô sobre placa-mãe de computador, em imagem ilustrativa 23/06/2023 REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração

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Um relatório de 7 mil palavras publicado no domingo (22) à noite foi suficiente para ampliar a aversão a risco em Wall Street. O texto, assinado pela Citrini Research, descreve um cenário hipotético em 2028 no qual a inteligência artificial provoca desemprego em massa entre trabalhadores de escritório, queda no consumo e contágio no sistema financeiro.

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Na segunda-feira, o Dow Jones caiu 1,7%, o S&P 500 recuou 1% e o Nasdaq perdeu 1,1%. Ações de empresas citadas no relatório, como American Express, KKR e Blackstone, estiveram entre as mais pressionadas, em um mercado que já vinha sensível a qualquer sinal de ruptura ligada à IA.

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Mas o que esse “relatório do fim do mundo” realmente diz? E dá para levar a sério?

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Desemprego em massaO ponto de partida do relatório é a ideia de que, historicamente, a inteligência humana foi o principal insumo escasso da economia. Com a IA tornando esse recurso abundante, o “prêmio” pago ao trabalho intelectual seria comprimido – ou, como diz a casa, a “obsolescência humana”.

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“As margens se expandiram, lucros superaram expectativas, ações subiram. Lucros corporativos recordes foram canalizados de volta para computação de IA”, descreve o texto em cenário retrospectivo. No futuro, custos de trabalho teriam caído e crescimento real de salários desabado, com perda de função entre trabalhadores de escritório.

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“A IA agora é uma inteligência geral que melhora justamente nas tarefas para as quais antes realocávamos humanos. Programadores deslocados não podem simplesmente migrar para ‘gestão de IA’, porque a IA já é capaz disso”, descreve o documento.

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No cenário traçado, a taxa de desemprego nos Estados Unidos sobe para 10,2% em 2028. O S&P 500 acumula queda de 38% do pico ao fundo.

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“PIB fantasma”A Citrini introduz o conceito de “PIB fantasma”: produção gerada por IA que aparece nas estatísticas, mas não se converte em consumo, já que máquinas não gastam. Com menos renda nas mãos das famílias, o consumo cai, margens ficam sob pressão e empresas aceleram a automação. O resultado seria um ciclo de retroalimentação sem freio natural.

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Setores baseados em intermediação e taxas seriam particularmente vulneráveis. Aplicativos de entrega, como DoorDash, e redes de cartões, como Mastercard, dependeriam de fricções que sistemas automatizados poderiam eliminar.

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No crédito, o risco estaria em empresas de software financiadas por private equity. Se clientes passarem a desenvolver soluções próprias com auxílio de IA, contratos caros perderiam valor, elevando o risco de inadimplência no mercado de crédito privado, hoje estimado em US$ 1,8 trilhão.

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A própria casa ressalta que o texto é um cenário hipotético, não uma previsão.

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Quem está por trás do relatórioParte do mercado levou a sério o que disse o relatório, mas a casa por trás dele está longe das mais respeitadas.

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A Citrini Research foi fundada em 2023 por James van Geelen, um “outsider” do mercado financeiro com formação em biologia e psicologia que trabalhou como paramédico em Los Angeles antes de vender uma empresa de saúde para se dedicar integralmente a investimentos e análises macro e temáticas.

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Ele ganhou visibilidade ao antecipar teses ligadas à inteligência artificial e a medicamentos para perda de peso baseados em GLP-1.

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A Citrini se tornou a principal página de finanças do Substack, com mais de 122 mil assinantes e mensalidade de US$ 125. Segundo Van Geelen, seu portfólio pessoal acumula alta superior a 200% desde maio de 2023.

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O texto que provocou a reação foi coassinado por Alap Shah, gestor de um fundo focado em IA.

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Desculpa para venderO tamanho da Citrini não impediu o relatório de viralizar, mas ele encontrou um mercado já frágil e buscando uma desculpa para vender, ressalta o economista Joseph Steinberg, da Universidade de Toronto, em coluna no Financial Times.

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Além disso, a queda foi forte, mas mais contida do que os números podem indicar. O índice de ações de software dos EUA já vinha em queda por riscos envolvendo IA, e acumula queda de 24% apenas neste ano. Desde o pico em outubro, o recuo supera 30%.

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Ao mesmo tempo, houve sinais de uma rotação dentro da própria tese de IA, com investidores reduzindo exposição a empresas vistas como vulneráveis à automação e reforçando em fabricantes de chips, data centers e fornecedores de energia.

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Steinberg também levantou dúvidas sobre o conceito de “PIB Fantasma” usado no estudo. Segundo ele, se o PIB cresce, algum componente da identidade contábil (consumo, investimento, gasto público ou exportações líquidas) também precisa crescer. Investimentos, disse o economista, só são sustentáveis se houver expectativa de consumo futuro.

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Na mesma toada de cautela, alguns gestores pediram leitura equilibrada. “Eu levaria a sério, mas não literalmente”, disse Nick Ferres, da Vantage Point Asset Management, à Reuters, ao afirmar que a economia pode se adaptar mais rapidamente do que o cenário sugere.

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Paulo Barros

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Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)

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