Mercado vive gangorra com tensão EUA X China: “Latido de Trump é pior que a mordida”
Após ameaçar tarifas de 100% sobre a China, presidente dos EUA adota tom conciliador e impulsiona bolsas; investidores seguem atentos a sinais de trégua
Paulo Barros
13/10/2025 11h06 •
Atualizado 17 minutos atrás
Presidente dos EUA, Donald Trump, e presidente da China, Xi Jinping, durante encontro na cúpula do G20, em Osaka, no Japão29/06/2019REUTERS/Kevin Lamarque
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Depois de uma sexta-feira caótica, em que as bolsas globais perderam mais de US$ 2 trilhões em valor, o início desta segunda-feira (13) marca um alívio nos mercados. O motivo é simples: Donald Trump recuou no discurso.
Dois dias após ameaçar tarifas de 100% sobre produtos chineses, o presidente dos Estados Unidos disse que “tudo ficará bem” e que os EUA “não querem prejudicar a China”. A fala, feita no fim de semana, acalmou os investidores e trouxe de volta o apetite por risco.
A China havia respondido à ameaça dizendo que “não tem medo” de uma guerra comercial, mas também defendeu “diálogo e cooperação”, o que reforçou a percepção de que os dois lados ainda buscam uma saída negociada.
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O resultado é uma segunda-feira de recuperação, ainda que em ritmo contido por causa do feriado de Columbus Day, que mantém o mercado de Treasuries fechado e reduz a liquidez global.
Bolsas e moedas em recuperaçãoOs futuros das bolsas americanas operam em alta: o Dow Jones sobe cerca de 1%, o S&P 500 avança 1,4% e o Nasdaq, 1,9%. Entre as gigantes de tecnologia, Nvidia e AMD ganham mais de 3%, enquanto Apple e Meta sobem acima de 1%.
O dólar, que disparou na sexta, recua nesta manhã. No Brasil, a moeda americana cai 0,73%, a R$ 5,46, enquanto o Ibovespa futuro avança 0,98%, aos 141.745 pontos.
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O movimento é acompanhado pela alta do petróleo (Brent +1,6%) e do minério de ferro (+1,13% em Dalian), refletindo a expectativa de que o confronto comercial não saia do controle.
Na Europa, as bolsas também sobem, o STOXX 600 avança 0,4%, impulsionado por mineradoras, enquanto os mercados da Ásia fecharam no vermelho, ainda sob o impacto da queda de sexta.
Como a turbulência começouA tensão entre Estados Unidos e China voltou a crescer na sexta-feira (10). O governo chinês havia anunciado novas restrições à exportação de terras raras, minerais usados na produção de semicondutores, carros elétricos e equipamentos militares.
Trump respondeu com ameaças de tarifas de 100% sobre importações chinesas e novos controles sobre exportação de softwares críticos, o que acendeu o alerta nos mercados.
Segundo análise do Goldman Sachs, o episódio parece mais uma tática de negociação do que uma mudança estrutural. O banco lembra que as tarifas anunciadas por Trump só entrariam em vigor a partir de 1º de novembro, depois da reunião da APEC, em que está previsto um possível encontro entre Trump e Xi Jinping. Isso sugere que há margem para recuo.
O Ministério do Comércio da China (MOFCOM) também sinalizou disposição para o diálogo, dizendo que sua política de exportação foi uma reação às restrições dos EUA, e não uma escalada deliberada.
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“O latido de Trump é pior que a mordida”O movimento de sexta levou a maior queda desde abril, com o S&P 500 recuando 2,7% e o Nasdaq, 3,5%. Segundo o JPMorgan, o tombo foi agravado por vendas automáticas de fundos alavancados e estratégias sistemáticas, que despejaram cerca de US$ 26 bilhões em ações no fechamento.
Ainda assim, o mercado vê espaço para recuperação. O Matthew Ryan, estrategista-chefe da Ebury, resumiu o sentimento: “Já vimos isso muitas vezes. O mercado está discretamente confiante de que o latido de Trump é pior do que a mordida.”
Shutdown segue preocupandoMesmo com o alívio de hoje, os investidores continuam atentos a riscos que vão além da disputa comercial. A paralisação parcial do governo americano segue sem solução e deve atrasar o pagamento de servidores a partir de 15 de outubro.
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O Goldman Sachs aponta que, sem novos dados econômicos, o mercado fica dependente de manchetes políticas, o que amplia a volatilidade.
“Isso está ficando sério. Está começando a afetar a economia real”, disse à Fox Business o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, nesta segunda-feira, quando a paralisação entrou em seu 13º dia.
Além disso, a semana traz a temporada de balanços dos grandes bancos dos EUA, entre eles JPMorgan, Goldman Sachs, Citi e Bank of America, que devem oferecer pistas sobre crédito e consumo.
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E no Brasil?O alívio global e a alta das commodities ajudam o mercado local a abrir em alta, mas o cenário interno segue desafiador. A piora fiscal, a fragilidade do crédito corporativo e as saídas de capital estrangeiro continuam pesando sobre o real e os juros futuros.
Nesta terça-feira (14), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participa de audiência no Senado sobre a proposta que amplia a isenção do IR para salários até R$ 5 mil, que passou com unanimidade na Câmara e é um tema acompanhado de perto por investidores.
O que vem pela frenteOs próximos dias devem mostrar se o gesto de Trump foi apenas um recuo tático ou o início de uma trégua real com a China. Para o mercado, o que importa é se as tarifas de 100% serão mesmo aplicadas em 1º de novembro, ou se o “tudo ficará bem” é só mais um capítulo do estilo imprevisível do presidente americano.
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Se os resultados de grandes bancos podem dar um novo fôlego para a Bolsa – e dessa vez a barra não está tão alta assim, o que pode dar esperança de bons ventos. Ainda assim, a volatilidade é tão grande que o cenário está completamente turvo.
“Após o aumento da volatilidade implícita e realizada na sexta-feira, as carteiras com meta de volatilidade reduzirão sua alavancagem. Espera-se que esse ajuste resulte em cerca de US$ 30 bilhões em vendas de ações nos próximos dias, mesmo que o mercado se recupere”, alertam analistas do JPMorgan.
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Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)
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