JPMorgan está preocupado se fluxo para B3 seguirá e prevê 2 trimestres desafiadores
"Nossa preocupação, neste momento, é que a história doméstica não seja forte o suficiente para sustentar o mercado quando/ se os fluxos começarem a diminuir", apontam os estrategistas
Lara Rizério
06/02/2026 12h05 •
Atualizado 6 minutos atrás
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Quem ousa ir contra os fluxos? Em janeiro, a Bolsa de Valores brasileira, a B3, fechou janeiro com um fluxo recorde de investimentos estrangeiros: R$ 26,31 bilhões, superando os R$ 25,47 bilhões aportados ao longo de todo o ano de 2025. Com isso, o índice subiu 12,6% no primeiro mês do ano, tendo o melhor janeiro desde 2006.
Apesar do forte fluxo, os estrategistas do JPMorgan, liderados por Emy Shayo, fazem alguns alertas para o mercado.
“Como estrategistas pouco acostumados a ver movimentos dessa magnitude, nós nos preocupamos. E nossa preocupação, neste momento, é que a história doméstica não seja forte o suficiente para sustentar o mercado quando/ se os fluxos começarem a diminuir”, apontam.
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Eles reforçam que há dois gatilhos para o Brasil em 2025: o ciclo de afrouxamento monetário e as eleições. Enquanto o primeiro está sendo rapidamente precificado, o segundo não. E, historicamente, aponta, o mercado não se sai bem em ciclos eleitorais.
Por isso, acreditam que o 2T e o 3T no Brasil serão bem mais desafiadores. “Na ausência de suporte global vindo de um dólar fraco/ fluxos positivos, achamos que o mercado brasileiro deve fazer topo entre o fim do 1T e o início do 2T, por volta do começo do ciclo de corte de juros. A boa notícia é que continuamos positivos em relação a emergentes como um todo e pouco preocupados com valuations”, ressalta.
O Brasil não costuma ir bem antes das eleições…Os analistas ficam de olho nas eleições de outubro e ressaltam que em, cinco das seis eleições que ocorreram neste século, o real se desvalorizou nos seis meses anteriores à votação. Também em cinco de seis episódios, o Ibovespa e o MSCI Brazil tiveram desempenho negativo.
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Em média, nos seis meses que antecedem as eleições:
– Real enfraquece 15%,
– Ibovespa cai 8,5%,
– MSCI Brazil recua 20%.
Se excluir 2002 — quando a distorção de preços foi maior, pois Lula foi eleito pela primeira vez —, as médias ficam em:
– desvalorização do real de 7,8%,
– queda de 2,3% no Ibovespa,
– recuo de 11,2% no MSCI Brazil.
Em média, o MSCI Brazil registrou um desempenho abaixo do MSCI EM (emergentes) em 8,9% nos seis meses anteriores às eleições.
…e, mais recentemente, o mercado tem antecipado os cortes de jurosO JPMorgan aponta que há uma diferença enorme na forma como a Bolsa se comporta durante ciclos de afrouxamento monetário.
O desempenho é bem melhor quando o corte de juros acontece em períodos de melhora de política econômica, isto é, quando reformas que permitem uma posição fiscal mais saudável estão em curso.
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Os dados mostram ganhos muito fortes em 2005–2007, 2009 e 2016–2018, que foram períodos transformacionais no Brasil (2009 um pouco menos), apontam, ponderando que há uma distinção grande entre o desempenho médio do mercado durante ciclos de corte de juros (24,2% para o MSCI Brazil, nos últimos 20 anos) e a mediana (7,9%).
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“Por fim, nos dois últimos ciclos de afrouxamento, as ações anteciparam o movimento: a Bolsa andou mais nos três meses anteriores ao início dos cortes do que durante o ciclo em si”, avalia a equipe de estratégia.
É um caso de “compra no boato, vende no fato”?O banco aponta que a curva de juros já precifica 270 pontos-base de cortes (ou 2,7 pontos percentuais), contra 350 pontos na projeção do JPMorgan (o banco tem mostrado repetidamente que o mercado costuma subestimar a queda de juros). A curva passou, inclusive, a embutir mais afrouxamento no último mês, à medida que o real se apreciou.
Vale notar que duas reuniões de política monetária acontecerão depois do segundo turno das eleições, o que adiciona incerteza relevante às decisões sobre a taxa de juros, dado o impacto potencial da reação dos ativos pós-resultados. “É a primeira vez que o país combina eleições com ciclo de corte de juros, o que torna especialmente difícil precificar esse quadro”, aponta o JPMorgan.
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Ainda assim, os juros reais seguem altos demaisPara o banco, a história completa depende de os juros reais caírem para níveis menos extremos. Segundo estimativas do JPMorgan, a taxa real do Brasil está em 7,6%, considerando projeções de inflação e juros de fim de ano.
Historicamente, o Brasil é o país com maior juro real, justamente porque tem o pior quadro fiscal. O que faria o prêmio de risco de ações cair — abrindo espaço para ganhos extraordinários na bolsa — seria uma política fiscal crível, que permitisse que a taxa real convergisse para níveis semelhantes à média dos emergentes, e não apenas cortes pontuais de 250 ou 350 pontos-base na Selic.
“Podemos torcer para que este seja apenas o primeiro passo de um ciclo mais longo, mas, neste momento, não há garantia de que isso será alcançado. Os 350 pontos-base de cortes que o JPMorgan projeta para a Selic são o menor ciclo deste século, com exceção do último (2023/24), quando os juros caíram 275 pontos-base. É algo positivo, mas não transformacional”, aponta.
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Para comparação: em 2005, com políticas caminhando na direção correta, a Selic caiu 850 pontos-base, chegando a 11,25%; em 2016–2018, no chamado “dividendo das reformas”, os juros recuaram 775 pontos-base, de 14,25% para 6,5%.
Para mais altas, fluxos precisam continuarOs fluxos para emergentes até 6 de fevereiro somavam US$ 47 bilhões, cerca de US$ 18 bilhões acima de todo o volume de 2025. A maior parte desses recursos (cerca de US$ 36 bilhões) entrou via ETFs (fundos de índices), que tendem a favorecer large caps em mercados com forte participação de estrangeiros — caso do Brasil, onde 60% do volume médio diário é negociado por não residentes.
Fundos globais, que somam US$ 40 trilhões em ativos sob gestão (AUM), seguem com baixa exposição em ações de emergentes (5,3% de alocação, contra algo como 11,5% num patamar neutro). Pequenos ajustes nessa direção podem fazer grande diferença. Na B3, os fluxos têm sido excepcionalmente fortes.
O JPMorgan acredita que esse ambiente pode continuar. Nos relatórios recentes de emergentes, o banco defende que: o dólar deve seguir se enfraquecendo; o ciclo de IA tende a dar lugar a um novo boom de commodities, beneficiando emergentes e América Latina.
Além disso, pela primeira vez desde a Covid, o Brasil negocia em linha com sua média de 10 anos, ainda é um nível considerado razoável. “Em termos absolutos, o Brasil só está mais caro do que Egito, Turquia, Hungria e Grécia“, aponta. Em geral, o banco diz não estar preocupado com valuation nesse patamar, embora reconheça que, conforme o mercado sobe, o preço relativo ganhe mais peso.
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Setorialmente, o banco vê que ainda há bolsões de atratividade: Energia segue bastante barata; Materiais básicos continuam com desconto em relação a GEM e pares globais, embora já um pouco acima da média de 10 anos; Financeiro, maior setor do índice, está em linha com EM, mas cerca de 12% acima da média de 10 anos; Utilities também negociam com prêmio de quase 30% em relação à própria média histórica.
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Lara Rizério
Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.
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